sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Curta Temporada do Espetáculo "Os Malditos"

 
                                     
Em curta temporada a Cia Tanto de Lá Quanto de Cá, 
 Apresenta "Os Malditos", espetáculo baseado na obra "Oração para um Pé-de-Chinelo" de Plínio Marcos.
Você entrará na trama de três seres com poucas expectativas. Uma fuga, uma morte e o desespero total querendo a sobrevivência. Dor. A Frustração toma conta dos personagens em uma noite estranha, a cachaça que os nos embriaga e que é o café da manhã de rato, como uma crítica; para aguentarmos o nosso dia, todo dia, precisamos nos embriagar, pois sóbrio não se aguenta.
Como você age quando alguém te encurrala?
Num barraco, Rato, Dilma e Bereco, vão decidir sobre suas vidas.
Um mergulho na vida marginal, o fugir dos "homi", o querer e não poder ter. Num sistema que nos torna marginais.

Elenco: Daya Abudi, Venicio Toledo e Yuri Montezuma
Direção: Flávio Lofego
Maquiagem/Fotografia de Capa, Figurino, Cenário: Allana Khristie
Música: Piero Aranibar
Música ao Vivo: Piero Aranibar.
Produção: Cia Tanto de Lá Quanto de Cá.
Data: 02, 03, 09 e 10 de Dezembro
Entrada: R$ 20 Inteira e R$ 10 Meia
* Antenção: PÚBLICO LIMITADO A 25 PESSOAS POR SESSÃO.
Local: CINE TEATRO RECREIO

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

O Que Se Passa No Quarto Ao Lado?

Arte - João Marcos



Quando fui morar no meu apartamento atual (Quartinho, pequenino), não imaginava o que poderia encontrar por lá. Na verdade o interesse pela mudança não foi meu e sim da minha namorada, que por sinal tinha razão, no meu antigo endereço as coisas eram estranhas.
Pelo menos umas três vezes alguém "abriu" minha janela "procurando" alguém, então passei a colocar a cabeça no travesseiro com um facão, na estante uma faca menor e no bolso uma canivete, de alguma forma eles iriam me ajudar a dizer para a rapaziada que os tal fulano que viviam procurando não morava lá.
Nessa época trabalhava em um mercado conhecido na cidade ( não vou dizer o nome por que não estão me pagando para tal), saía de casa 4:30 da manhã para pegar a condução das 5:00, para está naquele deposito ás 5:45, para enfim começar os trabalhos 6:00 em ponto. Mas... Sempre tinha a oração matinal. Nunca fechei os olhos, pois se o fizesse com certeza não tornaria a abrir antes das onze. Dividi essa rotina durante um ano de segunda a sábado com minha universidade, que também era de segunda à sábado. Então vocês podem imaginar como fiquei.
Pois bem... Vamos ao que interessa antes que eu esqueça. O meu novo local de moradia tem a aparência de uma pequena vila, com um portão grande vermelho com entrada para carros, a senhoria fez sua residência acima dos quartinhos e mais dois ao fundo (Dividido ao meio se tornou dois), um deles é o meu, lá não tem terreno de terra, tudo é piso cerâmico. Atualmente sinto falta de terrenos de terra, do cheiro da poeira do quintal, das galinhas ciscando, essas coisas.
Minha namorada disse que iria morar comigo e assim o fez e a primeira coisa que fez na nova moradia: Pintar a parede com desenhos de que gostava, simplesmente acho legal e bonito, mas não tenho habilidade para tal. Quando mudamos estava um calor do cacete e mesmo assim a vizinha do quarto ao lado chegou, nos olhou e entrou trancando a porta atrás de si.
Cada um com seus problemas, mas estava quente, muito quente e com certeza aquele quarto não tinha ar condicionado e nenhum ventilador poderia suprir a necessidade de um ar mais fresco. Para nossa surpresa tinha uma porta dentro do nosso quarto que ligava ao quarto da vizinha "estranha". A primeira piada que fizemos foi: Imagina se estamos dormindo e alguém abre a porta e... Minha namorada não gostou da brincadeira. Então parei. Depois de muita arrumação, apagamos.
Passaram-se alguns dias de tranquilidade na pequena vila de moradores estranhos, a vizinha da frente trabalhava com salão de beleza, a filha numa loja e o filho era professor de artes marciais, já o marido sempre o via com uma lata de cerveja na mão, acho que era provador de cerveja. Tinha o senhor dos bombons, vendia doces e balas de frente da igreja que fica ao lado. A senhora que trabalhava no mercado durante a noite e dormia durante o dia. E por fim minha vizinha misteriosa, a única coisa que sabia dela era que trabalhava numa loja de bebidas para emagrecer. Nossa comunicação se resuma apenas no bom dia e boa noite.
Passaram-se os meses e minha namorada decidiu voltar para casa da família, não, nós não terminamos, mas ela tem alergia e o ambiente não estava colaborando com sua saúde. Por isso foi necessário ir "embora".
Nunca se ouvia nada saindo daquele quarto, mesmo tendo uma porta como divisão entre o meu mundo e o mundo ao lado com seu marido. Sim, ela é casada, amigada, o cara aparece a cada quinze dias, parece que vive viajando, mas é quando ele está que a coisa fica interessante, parece que aquele silêncio ganha vida. Ela é morena dos cabelos lisos, de curvas salientes, olhos grandes, seios fartos e boca carnuda, já ele um magrela, cabeçudo e estranho. Mas o que se passa no quarto ao lado?
Chego em casa depois de um dia cansativo de trabalho, passo em uma distribuidora e compro umas bebidas para engolir os sapos diários, caso contrário não se aguenta. Não tenho cama, tiro a roupa, coloco as bebidas na geladeira, pego uma garrafa e me sento no colchão, pego um dos dez livros que estou lendo ao mesmo tempo e começo a matar o capítulo, me silêncio, mas ali acordado devaneando minha vida quando ouço.

- Caralho mete direito!

 Puta merda, esses dois estão trepando e eu sem sono vou ser obrigado a participar como voyeur de ouvido, decido buscar outra cerveja, quando ameaço levantar  para ir buscar outra cerveja...

- Faz silêncio... Ouviu? (Diz ela)

- O quê?

- O Vizinho!

- Não estamos fazendo nada, estamos na nossa casa.

Estão... Estão atrapalhando meus pensamentos, poluindo as boas ideias, queria escrever algo sobre o ocorrido no dia e agora graças aos dois trepadores perdi o fio da meada. Saí e fui buscar mais uma cerveja. Quando volto escuto o cara dizendo que iria buscar umas cervejas na distribuidora, pensei: Que transa mais rápida, coelho perde.
O cara sai e a mulher fica reclamando, dizendo que o cara não apertou direito, que a merda não ia prestar, saco que ela liga para alguém e conta toda a história. Acho que o lance foi muito ruim para ela sair contando para as amigas. Queimou o carinha.
Ouvir alguém transando uma vez é interessante, agora ouvir alguém não transando é frustante. Os dias seguintes foram uma verdadeira batalha entre ele e ela.

- Você não está conseguindo. (Dizia Ela)

- Se você não falasse tanto poderíamos conseguir (Falava ele)

- Não está dando certo entre nós!

Caramba o amor estava acabando. Ela concordou, mas mesmo assim continuaram morando juntos e logo percebi que o lance era tudo fachada, não terminaram porra nenhuma. Ficaram em silêncio, me ouvindo, cada mexida que dava em minhas sacolas, bolsas, a roupa suja que jogava no canto da parede, era comentado no quarto ao lado. A porta! Corri para porta que dividia o quarto, coloquei o ouvido, pensava: O que se passa na merda desse quarto? Escuto algo muito perto da porta, bate um receio, vou sair daqui, pegar uma cerveja e desencanar. Quando estou relaxando a mulher diz: Está tudo silêncio lá. Será que ele dormiu? - Responde uma voz feminina. CARALHO. Estão ouvindo os meus passos. Faço barulho de propósito, mexo em livros, sacudo roupas, A conversa se intensificava do lado de lá. Até que cansei e apaguei. Pela manhã estava saindo quando deparo com a porta deles escancarada, uma calcinha (usada) estendida numa cadeira, sutiã no chão, vejo uma sobra vindo e baixo a cabeça e começo a fechar minha porta. Um espirro bem forte. Ela é alérgica. Bom dia - digo descaradamente com o olhar dizendo - Sei que estava atrás da porta me ouvindo. Ela responde com a cara amassada, olhos inchado elo o efeito do problema com a alergia - Bom dia.
Dou uma receita caseira que pode ajudá-la com o seu problema. Eu estava sonado e não tinha reparado que a mulher estava apenas de sutiã e uma calcinha bem curta - sendo sincero - só a tira. E transparente. Prefiro acreditar que era o efeito da alergia.
Vou saindo em direção ao grande portão vermelho e ouço uma pergunta.

- Vizinho posso te fazer uma pergunta? (Diz ela)

- Claro!

- O que acontece no seu quarto pela noite? Parece que você não dorme.

Penso um pouco, também queria saber o que se passa no quarto dela durante a noite, respondo:

- Gosto de ler e fico até a madrugada nos livro.

- Ah! Entendi.

Não me contive...

- E no seu? Ouvi você brigando com o marido.

- Não é bem meu marido... Um namorido... Minha irmã está vindo pra cá com seu filho, então pedi para ele montar uma pequena cama para meu sobrinho não dormir no chão. Só que o cara não consegue enfiar um parafuso direito. Sabia que iria escutar por isso disse para ele fazer silêncio para não te incomodar o sono. Incomodou?

- Não!

Dei até logo e fui embora... O cara não saber colocar o parafuso? Então o que significou aquele...

- Enfia tudo - (Dela).
Tá bom!

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Em Construção





A Cia Tanto de Lá Quanto de Cá é formada por Yuri Montezuma, Daya Abudi, Piero Aranibar e Venicio Toledo. Durante o processo de ensaio decidiram filmar fragmentos das cenas desenvolvidas. Assim criando uma fonte de pesquisa e memória. No momento o grupo reside em Rio Branco - Acre.

Em Construção





A Cia Tanto de Lá Quanto de Cá é formada por Yuri Montezuma, Daya Abudi, Piero Aranibar e Venicio Toledo. Durante o processo de ensaio decidiram filmar fragmentos das cenas desenvolvidas. Assim criando uma fonte de pesquisa e memória. No momento o grupo reside em Rio Branco - Acre.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Noite de Diabo Danado


Nessa primeira edição, Yuri Montezuma, coloca na cena da apreciação seus primeiros textos. Dando um mergulho na marginalidade vivida durante os primeiros anos da infância, entre mulheres de vida fácil, convivendo com pessoas que tinham os desejos mais estranhos e com caras de pau. Aqueles que conseguiam dar nó em água, caso de Paulo em SER, Pra Quê, Por quê?, ou da consciência política das prostitutas de Noite de Diabo Danado.
Assim nessa mistura de géneros como na Rua do Loucos, o autor transmuta esses personagens reais que em algum momento estiveram em sua companhia ao longo de sua vida.







quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

A Obra e a Arte

A Obra e a Arte
Yuri Montezuma

Uma exposição de pintores famosos. Da Vinci, Monet, Picasso, entre outros. Ao centro encontra-se um artista contemporâneo segurando um rolo de papel higiênico escrito arte. Os observadores entram na sala e elogiam bastante às obras já conhecidas, mas ignoram o artista e seu rolo de papel. Um grupo de amigas entra na sala e elogiam bastante as obras mais famosas e entram em discussão sobre o conceito de arte do artista.
Os personagens não são nomeados para liberdade de montagem.
- Picasso é fantástico. Sua ligação do contexto histórico do mundo nos deixa maravilhada. Um verdadeiro artista.
- Eu já discordo de você. A obra mais misteriosa é a de Da Vinci... Ele conseguiu nos deixar curiosos e sair em busca de resposta para outras existências, outros mundos.
- Já eu sou  fã de Monet...
- (As outras duas) Quem era Monet?
- Monet? Ora... Monet era Monet... O cara que pintou esse quadro que vocês estão vendo. Pergunta boba... Conhecem Picasso e Da Vinci, mas não conhecem Monet. Absurdo.
- E você conhece esse tal de Monet?
- Claro que sim... Mas vamos deixar de bobagem (olhando para a quarta amiga) e você gosta de quem?
- Hélio Melo.
- (As três anteriores com desdém) E desde quando artista do acre merece ser valorizado igual a Monet, Picasso ou Da Vinci?
- (A quarta amiga) Não é uma questão de querer igualar ou querer ser melhor, superior, mas é uma questão de saber que aqui também existem bons artistas. Pintando, escrevendo ou atuando. Aqui também tem arte.
- Sei arte...
- Vamos acabar com essa discussão de gostos artísticos por que tenho coisas bem mais importantes para mostrar pra vocês.
- O que foi?
- Olhem aquele homem parado segurando aquele rolo de papel higiênico escrito arte.
- Isso é um completo absurdo...
- Um disparate...
- Uma ofensa...
- Uma obra de arte...
- (As três) Isso! Uma obra de arte.
- (A primeira) Uma o quê?
- Obra de arte!
- (As três) Você está louca!
- Primeiro gosta de Hélio Melo e diz que aqui tem bons artistas.
- Que devemos valorizar esses ditos bons artistas.
- Que aqui tem arte.
- (As três) Louca...
- E no banheiro feminino está faltando papel e esse aqui com um rolo inteiro.
- Ele deve usar muito...
- E aqui está até com um cheiro esquisito... Parece ovo estragado.
- Não peço que concordem comigo... Cada um tem seu gosto e conhecimento em relação à arte. O que vemos aqui é arte contemporânea.
- Arte contemporânea!
- Gosto!
- Conhecimento!
- Amigas pensei que vínhamos aqui para apreciar a arte em suas diversas faces e não encerrar nossa amizade.
- Ninguém veio encerrar nada!
- Só que achamos que arte contemporânea é o que o rolo de papel mostra.
- Isso mesmo... Um bosta!
- Eu não disse isso... Quis dizer que é sem sentido.
- Então para vocês arte deve fazer sentido?
-  (As três) Sim
Adentra o salão uma senhora de cabelos solto, óculos escuros, sapato alto, magra. Observa a discussão das quatro por um instante e decidi intervir.
- Desculpem senhoras, mas estava observando vocês discutirem sobre o que é ou não arte. Gostaria de participar dessa coversa se me permitirem.
- Claro que sim... Uma quinta Opinião sempre é bem vinda.
- Por que dessa briga toda?
- Olhe ao redor... Aqui tem os mais famosos artistas do mundo. Pela primeira vez temos aqui no Acre uma exposição desse porte. Nossa amiga aqui está dizendo que esse rapaz, musculoso, alto, jovem e com esse volume aqui! É arte.
- Que volume?
- O papel... Pensou que fosse o quê?
- Nada... Só que você falou volume com uma cara de...
- Dor na barriga... Isso que sinto toda vez que tenho que olhar pra isso.
- Senhoras não vão sair do foco.
- Tem razão. Vamos nos focar. Disse as minhas amigas que a arte contemporânea existe sim e que esse rapaz segurando o papel higiênico com o escrito ARTE, demonstra que o artista transformou esse papel que serve para outras funções além da qual foi desenvolvido.
- Limpar a bunda isso sim! A única obra que ele faz.
- Seguindo o conceito de que o artista contemporâneo transforma a arte, posso afirmar que isso aqui é uma obra de arte.
- Entendeu agora...
- Eu já havia entendido!
- Espera aí... Você está dizendo que isso aqui é arte?
- Sim!
- Ser ou não ser? Essa é a questão no meio desse turbilhão e tanta confusão!
- Está vendo?
- O quê?
- Você acaba de transformar a arte!
- Mas usei a frase famosa daquele autor famoso inglês...
- Molière...
- Cruzes... Molière era da França.
- Isso não tem importância no momento. O importante é que a obra foi transformada em outra obra e agora já não é o que era.
- O que diabo essa mulher está dizendo?
- Eu não sei, mas concordo e agora digo que o rapaz com o papel é arte!
- Não foi você que disse que à arte contemporânea era uma bosta?
- Claro que foi, mas depois de esclarecido os fatores, os teoremas, as conclusões e o aprendizado... Vejo que isso aqui também é arte.
- Fico feliz por entenderem... Agora acho que nós sabemos que existem vários conceitos de arte... Certo?
- Certo nada... Isso não passa de um rapaz segurando um papel e não é arte.
- Também acho... À arte tem que mexer com a gente... Algo que possamos fazer reflexão... Levar algo de bom para casa. Agora isso aqui! A única coisa que levo pra casa é uma verdadeira vontade de correr para o banheiro.
- Mas não deixa de ser uma reflexão.
- Bem, não serei eu que vou colocar na cabeça de vocês o que  é ou não é arte. Vou indo para segunda parte da exposição, onde mostra homens e mulheres completamente nus. Sem nada para cobrir seus sexos. Passar bem. (sai)
- Isso é uma vergonha...
- A família acriana deve ser poupada de tamanha insensatez...
- Um ataque contra as pessoas de bem.
- Eu vou observar a segunda parte da exposição... Fui (Sai)
- Sabem meninas... Também vou. (Sai correndo atrás das outras duas)
- E você vai olhar aqueles corpos nus?
- Acho que vou ficar por aqui. Sou uma pessoa de família...
- Penso que devemos ir assistir também para poder criticar e tecer nossa opinião.
- Também acho!
- Vamos?
- Vamos!
- Espera aí... Essa frase do vamos,vamos é de Esperando Godot de Becket?
- Sim!
- Então nós transformamos a obra!
- E acabamos com a arte.
- Mas...
- Cala a boca (saem)
Entra um funcionário do prédio onde acontece a exposição e caminha em direção ao rapaz com o papel higiênico.
- Armando o que você está fazendo aqui?
- (Meio desajeitado) É que eu vinha passando pelo salão de exposição e senti uma vontade louca de soltar um pum.
- Não tenho nada com seus problemas intestinais! Faz uma hora que te mandei buscar papel higiênico para por no banheiro feminino e até agora nada.
- Pois então... Não aguentei e acabei soltando o pum preso.
- E o que tem isso?
- Fedeu...
- Foi por isso que demorou?
- Não... Fiquei com vergonha daquelas senhoras. Puxei a caneta do bolso e escrevi aqui a palavra ARTE. Parei igual uma estatua... Como se eu fizesse parte da exposição.
- Meu deus! Você estragou tudo... A exposição de arte contemporânea é no outro salão... Aqui é apenas exposição de obras clássicas.
- Tentei escapar, mas elas cismaram comigo... Discutiram se o papel era ou não era arte.
- Espero você no RH... Vai levar uma advertência.
- Por quê?
- Por pratica ilegal de arte!
- E tem isso?
- É uma norma que criamos hoje, agora, nesse exato momento. (sai)
- Basta virar artista para começar a ser recriminado. (Tira um pedaço do papel higiênico assua o nariz, luz vai diminuindo até o B.O)




FIM

Ser, Pra quê, Por quê?

Ser, Pra quê, Por quê?
Yuri Montezuma
Um consultório psiquiátrico, um divã, na cabeceira do divã uma cadeira, em um canto da sala existe uma estante com vários livros, na parede oposta existem pequenos quadros retratando a natureza, o ambiente é meio cinza, iluminado praticamente com um pequeno abajur. O piso é de madeira rústica e bem antiga. Em um dos cantos existe uma porta de entrada.
Ana, psicóloga, magra, cabelos presos por um elástico, usa uma camisa com mangas que cobre todo o braço, nariz empinado com certa superioridade, usa um pequeno óculos que vez ou outra precisa ajustar no rosto com a ponta do dedo médio. Calças retro tipo boca de sino e um sapato com solado de madeira que toda vez que anda faz um barulho esquisito no chão.

Paulo, ator, alto, com cabelo desgrenhado, brincos em ambas as orelhas, blusa amassada e com os botões abertos, barba grande, calças ao estilo próprio, sandálias de dedo, é muito agitado.

(Paulo, parado na porta observando o ambiente com um pequeno cigarro já ao fim em uma das mãos)

Ana – (Sentando na cadeira atrás do divã) Bom dia Paulo... Entre, sente-se...
Paulo – (Entrando e dando uma última tragada no cigarro) O dia não tem nada de bom... A arte é uma merda. A arte não... A arte ensinada é uma merda.
Ana – (Calma e passiva) Ali, atrás dos livros... Tem um cinzeiro. Pode pôr seu cigarro lá.
 Paulo – Você fuma? Não sabia... Algo novo. O estranho é que nunca senti cheiro de cigarro em você.
Ana – Não fumo...
Paulo – (Contando) E pra quê o cinzeiro?
Ana – Isso? É brinde que ganho da associação dos psicólogos do Brasil. Eles acham que todos nós somos fumantes e passivos a ter um câncer por excesso de cigarro.
Paulo – Ou por excesso de loucura.
Ana – A loucura é o que não preocupa. Você não quer sentar?
Paulo – (Que até aquele instante estava em pé) Sim claro...
Ana – Está melhor?
Paulo – Estou!
Ana – Como foi à semana?
Paulo – No geral foi bem... A questão é que sou artista... Ator.
Ana – Sei disso... E por sinal aquele espetáculo que você participa é um sucesso...
Paulo – (Cortando) Uma merda!
Ana – Eu gostei...
Paulo – (Novamente cortando) tenho pena de você... Que não entende... Que não sente... Não vive... Só tem a opção de gostar e não gostar. É frustrante. O teatro é mais.
Ana – Quer falar sobre isso?
Paulo – (Deitando no divã) Estudo artes ou era pra estudar. Já vivo com o preconceito de ser artista desde o berço. Lembro que no primeiro dia de aula fizeram uma pergunta para a turma: O que vocês querem aqui? Eu sabia o que queria. Tinha sentado do lado da porta, na última cadeira. As respostas começaram pelo lado das janelas... Na minha sala só o lado direito tinha janelas. Era infernal. O preconceito era grande mesmo. O curso já existia fazia uns quatro anos e ainda dependíamos de salas emprestadas para estudar. Todo dia era uma novela mexicana... Vamos para bloco tal... Agora vamos para outro bloco.
Ana – Isso parece deixar você irritado...
Paulo – (Cortando) Era um chute no saco! Éramos quarenta alunos... Uma sala com janelas apenas de um dos lados, um ventilador que mais fazia barulho do que aliviava o calor. Como não ficar irritado, como aguentar isso?
Ana – E a pergunta? O que vocês querem aqui?
Paulo – Sim, claro. Foi meio que engraçado... Eu meio que ria por dentro a cada resposta. Uma garota respondeu que estava ali para poder ir para TV, novelas... Essas coisas. Todos deram um sorrisinho de canto de rosto... Irônico. Não nego que também ri... Mas fiz algo por aquela garota que ninguém faria.
Ana – E o que foi?
Paulo – Tirei-a da universidade...
Ana – (Cortando) Por quê?
Paulo – Pense comigo doutora... Aquela criatura não queria aquilo... Ela queria ser atriz. O curso não daria isso pra ela. Só mostrei outras portas. A maioria dos atores de televisão fizeram outros cursos ou não fizeram curso nenhum. Apenas escola de teatro ou praticando por longo período de tempo. Se você quer ser ator certamente não precisa de universidade para tal feito. Agora se você quer ser professor de teatro você precisa do ser ator. Praticar o teatro é essencial para quem precisa ou quer seguir sendo professor de teatro. A universidade não oferece isso... Pelo contrário... Ela oferece tudo, menos teatro. Quando chegou a minha vez de responder... Alguns me olharam como se estivesse esperando uma resposta prolongada ou algo bonito. Apaixonado. A maioria me conhecia e sabia o que eu fazia. Olhei algumas caras abobalhadas por alguns segundos e disse: Estou aqui pelo diploma!

Ana – A garota saiu mesmo da universidade? E qual foi à reação dos colegas com sua resposta.
Paulo – (Sentando no divã, pegando uma carteira de cigarros do bolso no peito, puxa um cigarro, guarda a carteira, procura um isqueiro pelos bolsos, tem dificuldade para encontrar, Ana tira um pequeno isqueiro de um de seus bolsos e entrega para Paulo) Posso fumar?
Ana – (recolhendo o isqueiro que Paulo devolve) Fique a vontade... É costume de meus pacientes querer fumar durante o intervalo de suas falas.
(Silêncio)
(Paulo fica por alguns instantes com o olhar no horizonte, vazio, Ana, levanta da cadeira e vai até a estante de livros)

Paulo – (Levantando e indo até a porta) A garota aguentou ainda um mês e depois foi embora pro Rio de Janeiro. Creio que esteja tentando entrar para TV. Já a cara dos meus colegas não tem preço. Ontem eu estava tomando umas cervejas com alguns amigos músicos... Ando sempre por várias áreas da arte. Gosto disso. Estávamos no auge da bebedeira quando um deles tocou no assunto. Dizia: O cara vai passar quatro anos estudando música... Vai aprender ler partitura, colocar as notas certinhas no papel. Mas, quando o aluno desse mesmo cara que vai ser professor disser que quer aprender a tocar violão ou qualquer outra coisa, esse cara vai dizer que não toca, mas que pode ajudar o garoto a ler partitura. Isso é ou não é uma merda?
Ana – Como assim?
Paulo – (Sentando na cadeira atrás do divã) Eu não quero ser professor, mas também não quero que um cara ensine teatro sem saber teatro. Entende?
Ana – (Sentando no divã) A arte não está sendo passada no curso?
Paulo – Arte não se aprende...  Ou você nasce com esse dom ou não nasce... O que se aprende é técnica... Isso se aprende. Você pode praticar muito e se conhecer... Conhecer seu corpo, atuar... Mas, arte não se ensina. O que podemos fazer é desenvolver o que já existe em você. Acredito que existe um artista dentro de cada um... Mas que precisa desenvolver. Nem todos vão para o palco, mas podem ir pra iluminação, para som, para a contra regra, figurino, porra... A questão é saber onde se encaixa. Mais uma coisa é certa... Na universidade todos tem que praticar teatro... Muito teatro... Se quiser ser professor de teatro... Por que caso contrario podem deixar um aluno doente ou com problemas sérios no corpo... Teatro é sério e não uma brincadeira de pulinhos... Porra! Entende.

Ana – Claro que entendo.
Paulo – (Interpretando uma cena sem se levantar da cadeira) Essas sombras que me perseguem em quadros desfocados... Noites secas. Aqui na escuridão do meu quarto, penso naquilo que iríamos realizar e agora propõe a morte a todos do nosso clã. Maldito dia aquele que beijei tua boca e te dei guarita. Se alguém tem que morrer nessa casa... Morreremos nós de sangue impuro. De esqueleto putrefato de alma podre.

Ana – O que foi isso?
Paulo – É uma cena do meu próximo espetáculo... Tinha que ensaiar e decide tentar aqui. Precisa de uns ajustes cênicos.
Ana – Entendo... Mas ganho por hora.
Paulo – É mesmo?
Ana – Sim.
Paulo – (Pegando o caderno de anotações de Ana que estava ao lado da cadeira) Ana, sempre quis ser psicóloga?
Ana – (Deitando no divã) Não. Queria ser atriz... Fico com inveja toda vez que vou assistir a um espetáculo e você em cena. Sempre sofri uma pressão para seguir a profissão da família.
Paulo – (Tirando os óculos do rosto de Ana e colocando em seu rosto) Profissão da família?
Ana – É... Sou de uma família de psicólogos. Meu avô era um psicólogo que conheceu o próprio Freud. Meus tios todos eram psicólogos, meu pai, minha mãe também.
Paulo – Essa é uma situação Freud.
Ana – Tinha dez anos quando assisti a uma peça infantil. Naquele instante decidi que queria ser atriz... Comecei a procurar escolas de teatro, conhecer grupos, atores, diretores.
Paulo – E por que não continuou?
Ana – No começo meus pais acharam que era coisa de criança deslumbrada... Que logo me voltaria para as coisas da família.
Paulo – Coisas da família?
Ana – As coisas da família é entender os outros e tentar encontrar soluções... A questão que ser artista não é encontrar soluções e sim problemas. Confesso que tenho uma queda por problemas! Aqueles que você ensaia, briga com o colega de cena para uma solução, faz e desfaz tudo só por que não se encaixou no contexto da história.
Paulo – (Anotando alguma coisa no caderno) E o que sua família fez pra que você se tornasse psicóloga?
Ana – O que todas as famílias fazem quando querem que os filhos façam. Vivam os sonhos dos pais e enterre os seus. Pressão psicológica. Tentei várias vezes suportar a pressão, mas teve uma hora que não consegui e acabei cedendo.
Paulo – E aceitou assim as pressões da família?
Ana – No começo achei que era o melhor pra mim... Terminei os estudos e comecei a trabalhar. Logo já tinha uma lista intensa de pacientes. Ganho um dinheiro razoável e não tenho que reclamar da profissão, mas não sou feliz com isso.
Paulo – E hoje, depois de tudo... Já falou com sua família sobre sua vida?
Ana – Sim... Conversei com meus pais sobre tudo e sabe o que falaram?
Paulo – Se você não contar não vou saber nunca.
Ana – Que seria melhor eu ter seguido a carreira de atriz... Que eu seria mais feliz.
Paulo – E o que fez?
Ana – Fiquei um ano em terapia intensiva. Ainda vou ao meu psicólogo pra tentar entender.
Paulo – Qual a lição que você tira disso tudo?
Ana – Não sei...
Paulo – Que devemos viver nosso sonho e não o dos outros. Inclusive o dos pais. Se seguir o sonho de outros e não os seus, vai parar no psicólogo como agora.
Ana – Agora começo a entender doutor... Doutor?
Paulo – Sim!
Ana – Você não é psicólogo! A psicóloga aqui sou eu!
Paulo – Isso é verdade... A questão é que no meu próximo espetáculo vou fazer um psicólogo... Como nunca tinha interpretando nada parecido... Eu tinha que fazer um laboratório. E nada melhor do que usar nossos encontros para tal trabalho. Já sei que vou levar os lados bons e ruins da sua profissão e isso é algo bom não acha?
Ana – Claro que não... Você não tem preparo para tal prática e isso é uma fraude.
Paulo – Sou uma fraude, mas disse tudo sobre suas frustrações e anseios.
Ana – Eu não tinha a intenção... Eu...
Paulo – Entenda doutora, todos nós somos um pouco psicólogo, um pouco treinador de futebol, um pouco médico, um pouco professor.
Ana – E artista?
Paulo – Artista?
Ana – Sim... Artista!
Paulo – Só se conseguir enfrentar os pais, os amigos, a sociedade e a arte.
Ana – A arte?
Paulo – Sim... A arte.
Ana – Pensei que a arte fosse um bem... Um fim para respirarmos.
Paulo – A arte é o começo do sufoco. Se você consegue respirar arte então nada consegue abalar seus sonhos.
Ana – E conseguimos conquistar a arte?
Paulo – Isso que é engraçado... A arte nos conquista.
Ana – Então nossos sonhos podem ser abalados.
Paulo – Aquilo que se conquista fácil não tem valor!
Ana – Acho que estou conseguindo entender o que quer dizer...
Paulo – (Cortando) Se não entendesse também não tinha importância... Entender às vezes não é o que importa.
Ana – Isso é confuso...
Paulo – (Cortando) Doutora quanto você ganha por consulta?
Ana – (Sentando no divã) Duzentos por hora...
Paulo – (Cortando) A minha hora as vezes é setenta ou nada... Depende da ocasião.
Ana - Por falar nisso sua hora acabou...
Paulo – (Cortando) Posso voltar na semana que vem?
Ana – Claro é só marcar um horário com a Rita.
Paulo – Quem é Rita?
Ana – (Entregando um cartão) Minha secretária.
Paulo – Vou ligar então. Obrigado!
Ana – Tenha uma boa apresentação...
Paulo – (Cortando) Não se fala assim.
Ana – E como se fala?
Paulo – Merda
Ana – Então... Merda pra você.
Paulo – Obrigado... (Coloca a mão no bolso e tira um ingresso) Toma... Vai assistir.
Ana – Claro que vou!
Paulo – Tchau doutora (Sai).
Ana – Tchau.
 (Ana vai até a mesa e coloca o ingresso na bolsa, abre uma gaveta e pega um maço de cigarros cheira e joga no lixo, abre outra gaveta e pega uma garrafa de vinho, coloca um pouco em um copo, guarda a garrafa, fecha as gavetas, vai até a estante de livros com a taça, toma um gole, escolhe um livro, folhei algumas páginas)
Ana – (Colocando a taça de vinho em algum canto da estante) Ser ou não ser... Essa é a questão.
(Fecha o livro e pega a taça de vinho tomando de um só gole)
Ana – (Olhando para a plateia com a taça vazia na mão) Filho da puta! Não pagou a consulta.
(A luz vai diminuindo de intensidade até o palco ficar em escuro total)

FIM